ROMARIAS QUARESMAIS

Iniciando-se a Semana Santa, tradição religiosa cristã que celebra a Paixão, a Morte e Ressurreição de Cristo, esta é a última semana do tempo quaresmal que se inicia com o Domingo de Ramos e termina no Domingo da Páscoa do Senhor. Deste modo, a AEAzores não poderia ficar indiferente a este tempo que muito diz ao povo açoriano e aos seus emigrantes, sendo estes na sua maioria gente de grande fé e católicos. É neste sentido que destacamos a importância e a forma de como é vista e celebrada a Quaresma e todo este tempo de preparação para a Páscoa, nos Açores, mais precisamente na ilha de São Miguel, através das romarias quaresmais, as quais já contam com quase 500 anos desde a sua realização pela primeira vez, sendo este um ato de fé único e característico desta ilha.

As romarias quaresmais são um grande exemplo de manifestação religiosa na ilha de São Miguel que demostram a enorme fé do povo açoriano, neste caso micaelense. Estas romarias tiveram origem nesta mesma ilha, em meados do século XVI, época em que a mesma sofria seguidos abalos de terra, inclusive em 1522, Vila Franca do Campo, primeira capital da ilha, sofreu um violento terramoto, soterrando toda a vila. Na sequência desta catástrofe, a população, atormentada, viu na fé um refúgio para socorrer a todo este sofrimento e dificuldades que passavam. Sendo assim, a partir desta data foram muitos os homens micaelenses que se reuniam em pequenos grupos e começaram a percorrer algumas igrejas de devoção à Virgem Maria, na ilha de São Miguel em peregrinação, como promessa e agradecimento a Deus. Estas romarias prevaleceram com o passar dos anos até aos dias de hoje, passando de geração em geração, multiplicando-se por toda a ilha, onde ranchos de romeiros, de todas as localidades de São Miguel, durante o tempo da Quaresma, percorrem a ilha em oração, parando nas igrejas de devoção a Nossa Senhora e pernoitando nas casas daqueles que decidem acolher um romeiro.

Rancho de Romeiros do Livramento, 1950
Rancho de Romeiros das Capelas, 1960

 

Com a emigração, as romarias quaresmais micaelenses, que recentemente também se começaram a expandir por outras ilhas do arquipélago dos Açores, não foram esquecidas por aqueles que partiram. Deste modo, assiste-se à criação de alguns grupos e ranchos de romeiros na Diáspora, sobretudo nos EUA e Canadá, os quais têm a mesma iniciativa de continuar esta importante tradição religiosa, quer seja lá, nas comunidades portuguesas, quer seja cá, em São Miguel, com a vinda de ranchos de romeiros sobretudo de Toronto à ilha, os quais também fazem a sua peregrinação, constituindo-se como um Rancho de Romeiros Emigrantes ou integrando Ranchos micaelenses, que nunca esqueceram as suas raízes e quanto muito a sua Fé. Neste sentido, aproveitamos para destacar a importante ação de José Pimentel, um emigrante nos EUA, natural da Ribeira Grande, ilha de São Miguel, que foi responsável pelo início das romarias quaresmais, na cidade de Pawtucket, em Rhode Island, as quais comemoram este ano 25 anos.

Rancho de Romeiros da Maia, 1964
Rancho de Romeiros de Rabo de Peixe em descanso, 1988

 

Infelizmente, dada à situação pandémica que globalmente atravessamos, este é mais um ano que não se realizam as tão admiradas romarias quaresmais, mais um ano que as vozes em oração destes peregrinos se calam e não percorrem os caminhos de São Miguel pela madrugada ou durante o dia, quer faça sol, quer faça chuva, mais um ano sem se cumprirem promessas, mais um ano em que esta tradição religiosa é quebrada. Porém, este é mais um ano que somos colocados à prova e que, espiritualmente, fazemos a nossa caminhada quaresmal no nosso interior e em silêncio, com a esperança de que tudo irá melhorar.

Publicado a 29 Março, 2021