Congresso dos 270 anos da presença açoriana em Santa Catarina, no Brasil

Lélia Pereira Nunes, colaboradora regular do Diário dos Açores, foi a Coordenadora-geral, com Luiz Nilton Corrêa, da realização do Congresso dos 270 anos da presença açoriana em Santa Catarina, no Brasil, numa organização da Academia Catarinense de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, s duas instituições culturais mais antigas daquele estado. Nesta entrevista, Lélia Nunes faz o balanço do evento, em que estiveram presentes o Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, e o Presidente da Câmara de Ponta Delgada, José Bolieiro.
Como nasceu a ideia de se fazer um Congresso Internacional congregando tantas vozes? Aquando da realização do Encontro do Air Center, em novembro último, aqui na Ilha de Santa Catarina, em conversa com o Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia, Gui Manuel Menezes, e o Presidente da Fapesc, Sergio Gargioni, vimos uma nova forma de sintonia entre os Açores e Santa Catarina assentadas no olhar do desenvolvimento económico e sustentável, das potencialidades do mar que nos abraça nas duas margens. Outras vozes, falando de novas tecnologias ao mesmo tempo que nas Universidades, Institutos e Academias, falavam de interculturalidades históricas e culturais. E se debatiam questões sobre o real contributo das diásporas culturais e identidade. Um olhar que não era obsessivo e nem de saudade (já não havia saudade, porque 10 gerações nos separam e já naquela época se dizia que “aqui era a terra dos esquecidos”). Chegara o momento de rever estas abordagens e em particular de algumas que de certa forma “reiventavam” tradições ou rotulam como “açoriana” em nome de um legado muitas vezes discutível quanto à sua veracidade. Algumas, por exemplo, como o boi de mamão é fruto do cadinho de miscigenação, do encontro de culturas – a indígena, a afro, a portuguesa que configuram o litoral sul do Brasil e não é só açoriana no seu inteiro teor. Assim, nasceu o Congresso dos 270 anos com olhos voltados para o Mar, História, Património, Literatura e Identidade, com a participação dos principais pesquisadores da temática na área Ciências Humanas e Sociais, Ciências do Mar e Literaturas do Brasil, Portugal e Espanha. (…)
Desde o primeiro momento contou com parcerias de instituições culturais e científicas com a atuação reconhecida no âmbito da pesquisa histórica e antropológica sobre o movimento da diáspora açoriana no século XVIII e a dimensão da presença dos açorianos em Santa Catarina – das manifestações culturais, dos usos e costumes, do património edificado e preservado e o Mar – enquanto caminho histórico e fonte de riqueza, a partir do maior conhecimento dos recursos marinhos, visando à conservação e protecção dos oceanos para o desenvolvimento sustentável. Como avaliar os 270 anos da presença açoriana em Santa Catarina? Quais são as principais características e o seu legado? Num breve passear por cidades e vilas do litoral catarinense pode-se afirmar que em 270 anos de histórica presença há sinais muitos visíveis no património cultural material e imaterial, nas expressões artísticas e literárias que resistem as mudanças do mundo globalizado. É inegável a identidade cultural. O orgulho de sua origem – “de ser descendente de açorianos”. Daqueles que povoaram e que contribuíram no desenho do perfil social e humano do litoral catarinense, sobretudo de Florianópolis e dos 11 distritos da Ilha de Santa Catarina. (…)
Existem registos de quantos açorianos vivem hoje em Santa Catarina? A população de ascendência açoriana, que traz no sangue dez gerações – os açorianos de 270 anos como eu – estes somam cerca de 2 milhões de catarinenses, situados em 59 municípios do litoral desde Penha e Barra Velha, ao norte até Passos de Torres no Sul, limite com o Rio Grande do Sul. São municípios que celebram e cultivam com rigor a tradição do Divino Espírito Santo. Os açorianos “natos” são poucos. Algumas famílias que chegaram no século passado em época de crise para vários estados brasileiros, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo. Para o Sul do Brasil muito poucas famílias. Há exemplos muito interessante como da família Marcondes de Matos, oriunda da Achadinha, Nordeste (Ilha de São Miguel). Ainda no século XVIII um jovem militar Marcondes vem para o eixo Rio/São Paulo. Nas primeiras décadas do século XX, um seu descendente nascido no interior de São Paulo chega em Florianópolis para exercer a magistratura. Hoje, Fernando Marcondes de Matos, proprietário do Costão do Santinho Resort e Presidente do Floripa Sustentável, uma das cabeças mais brilhantes do Estado, ocupou vários cargos na administração estadual e municipal na área de Planeamento Económico, empresário, empreendedor, professor e escritor é descendente direto daquele Marcondes da Achadinha. Tem um orgulho imenso da sua origem açoriana. O Costão do Santinho é todo assinalado pela presença cultural açoriana, inclusive o nome das salas e painéis com o mapa das ilhas em relevo. Quanto ao Congresso, passados quase um mês de sua realização, “É inegável o orgulho em serem descendentes afirma Lélia Nunes, Coordenadora do Congresso. (…)
Fonte: https://24.sapo.pt/jornais/local/3952/2018-05-19#&gid=1&pid=3

Publicado a 23 Maio, 2018