(Sapa)teia Americana

De entre os temas mais versados pela literatura dos Açores (ou que lhe são mesmo estritos, se for certo dizê-lo), o da emigração para o continente americano é tão vasto, tão peculiar e talvez tão antigo quanto o próprio movimento de saída das ilhas para o Mundo. É possível que remonte aos primórdios da expressão lírica insular, desde quando deu vazão ao saudosismo e à solidão dos expatriados que povoaram o arquipélago. Poderá até dizer-se que um impreciso sentimento de “diáspora”, antes de o ser na prática, já o era na alma dos aventureiros da expansão marítima, quanto mais na desses colonizadores dos territórios desertos e das paisagens por onde foram passando.

Nos Açores desembarcaram não só os homens a quem foram cometidas as chamadas missões de soberania como também os de veniaga africana e oriental; passaram avante, ou por lá se fixaram, os simples povoadores, pobre gente do povo, marinheiros que, como Mishima, perderam as graças do mar, e fidalgos decadentes de todas as partes do reino – a que se foram juntando, em levas de condenação, degredados, padres malditos e outros perseguidos por delito de opinião. A “diásora” lusitana, que desde então lançou os seus impulsos tanto na vida como no espírito da nação, acabou por constituir um fenómeno difuso de cultura histórica e de civilização identitária. O mesmo que ainda hoje determina a natureza múltipla e a contraditória singularidade da condição portuguesa no Mundo.