Pico

HISTÓRIA

A descoberta da ilha por navegadores portugueses terá ocorrido a par das demais ilhas do Grupo Central. Inicialmente conhecida por Ilha de D. Dinis, o atual nome surge face à maior montanha portuguesa que aí se localiza. Pensa-se que o Pico terá sido a última ilha do grupo central a ser povoada, num esforço concretizado principalmente a partir da década de 1480.

Colonos provenientes de Portugal continental, após escala na Terceira e Graciosa, escolhem as Lajes como primeiro local de residência. As plantações de trigo e da planta tintureira do pastel, por influência do vizinho Faial, são frágeis esteios do desenvolvimento económico durante o primeiro século de povoamento. Com efeito, o clima seco e quente de algumas zonas da ilha, em conjunção com a riqueza mineral dos solos de lava, contraria o traço agrícola desta ilha, mas permite um crescente sucesso da cultura da vinha, com predomínio da casta verdelho. Aos poucos, o vinho e a aguardente picoenses destacam-se entre a produção vinícola açoriana e tornam-se apreciados dentro e fora da ilha, permitindo o desenvolvimento da vitivinicultura, particularmente ao longo do século XVIII. Exportado para a Europa e para a América, o verdelho atinge fama internacional. Chega inclusive a marcar presença na mesa dos czares russos.

A ligação com o Faial é forte, não só no plano administrativo, como económico. Por um lado, a Horta funciona como porto de exportação dos produtos do Pico, que carece de enseadas seguras. Por outro, até à crise vinícola do século XIX, um elevado número de proprietários de terras picoenses provinha da ilha vizinha. O primeiro quartel do século XVIII é marcado por erupções vulcânicas de monta, espécie de prenúncio para o término do período dourado do verdelho. Em meados do XIX, o ataque devastador do oídium e da filoxera extingue a maior parte dos vinhedos. Perdido o cultivo, esfumada a tradição e prestígio, cresce a emigração dos habitantes locais para o Brasil e América do Norte. Como alternativa, parte dos que ficam viram-se para o mar.

Desde o século XVIII que a ilha tem contacto com a atividade baleeira. Frotas inglesas e norte-americanas procuram o cachalote nas águas em redor do Pico. As barcas utilizam os portos da ilha para descanso da tripulação, abastecimento de mantimentos, estaleiros de reparação e posto de recrutamento de novos braços para a dura batalha contra os gigantes do mar. Surgem na segunda metade do século XIX os primeiros intentos da comunidade local para abraçar a atividade. A caça ao cachalote prospera e alastra a outras ilhas do arquipélago. A dinâmica mantém-se até meados do século XX, altura que marca o declínio da atividade. O ponto final surge em 1986, com o definitivo impedimento da caça aos cetáceos, na sequência da assinatura pelo Estado português da moratória proibitiva da Comissão Baleeira Internacional.

Recuperando tradições seculares e reinventando-as, o Pico mantém hoje em dia uma ligação estreita com o cachalote. O contacto com os cetáceos, agora protegidos, é pedra de base da indústria turística. E a vitivinicultura voltou a ter alguma importância, auxiliando a economia da ilha onde os serviços, a agricultura, pecuária e pesca são atividades relevantes. A singularidade da vinicultura picoense é reconhecida internacionalmente, com a classificação da Paisagem da Cultura da Vinha como Património Mundial da Humanidade, pela UNESCO, em 2004.

GEOGRAFIA

Pico: a segunda maior ilha dos Açores, com 444,9 km2 de área e forma alongada, graças aos seus 46,2 quilómetros de comprimento e 15,8 de largura máxima. Dominada pelo vulcão da Montanha do Pico na sua metade ocidental, a ilha está afastada 6 km da vizinha ilha do Faial e é povoada por 14 148 habitantes (dados de 2011). É a ilha mais a sul do Grupo Central do Arquipélago dos Açores e um dos vértices das chamadas “ilhas do triângulo”. O ponto mais elevado da ilha, aos 2350 m de altitude, é também o ponto mais alto de Portugal e está situado no Piquinho, na Montanha, a 38°28’07’’ de latitude norte e 28°23’58’’ de longitude.

GASTRONOMIA

Terra de tradição vínica, no Pico produzem-se vinhos brancos, tintos e rosé bastante apreciados em todo o Arquipélago. Aos poucos, tenta-se recuperar o prestígio do vinho proveniente da casta verdelho, melhorando a produção e inovando nos produtos. “Basalto”, “Lajido” e “Terras de Lava” são designações de vinhos do Pico que remetem para uma relação homem-natureza que a ilha muito preza. A Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, na Areia Larga concentra a produção local, já baseada em novas castas, e pode ser visitada. As aguardentes de figo e de nêspera também têm adeptos e ainda se conseguem encontrar velhos alambiques de cobre a funcionar. A angelica e os licores de frutos são propostas mais doces.

A ilha sempre foi grande produtora de fruta, sendo afamado o figo, de interior vermelho vivo. O mel produzido com a flor do incenso e o Queijo do Pico – DOP, um queijo de leite de vaca de pasta mole muito apreciado, completam a lista de preciosidades gastronómicas da ilha. À mesa, são diversas as propostas para uma refeição típica, com particular destaque para o polvo guisado com vinho de cheiro, linguiça com inhame, molha de carne e os caldos de peixe.

FESTIVIDADES

Além da transversal Festa do Espírito Santo, o Pico tem especial devoção ao Senhor Bom Jesus Milagroso. Os festejos decorrem em São Mateus, por volta do dia 6 de agosto e têm por base a veneração dos peregrinos a uma imagem originária do Brasil e exposta no Santuário do Bom Jesus Milagroso. Na Madalena, a festa dedicada à padroeira do concelho, Santa Maria Madalena, inclui manifestações religiosas, desportivas e culturais que animam o mês de Julho.

Em São Roque, o Cais de Agosto combina espectáculos musicais com mostras de artesanato e provas desportivas. Nas Lajes, a Semana dos Baleeiros junta a homenagem aos que participaram nesta importante actividade socioeconómica dos Açores a um programa eclético que anima a parte final do Verão. Já em Setembro, a vila da Madalena propõe as Festas da Vindima, com arraial e evocações etnográficas tendo por base a cultura da vinha.

As corridas de botes baleeiros são muito simbólicas na ilha do Pico. As regatas, efectuadas em botes de madeira com espaço até seis remadores, marcam presença assídua em várias festas e contam com aguerridas disputas com tripulações vindas de toda a ilha e das outras “ilhas do triângulo”.